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Algumas indicações sobre a transferência e a paranóia

Atualizado: Jun 18




Por Eduardo Vallejos da Rocha



Na clínica psicanalítica sabemos da importância em estabelecer a diferença entre a transferência nas neuroses e nas psicoses. Diferente do neurótico, o sujeito psicótico não supõe um saber no analista, ele próprio carrega este saber na forma de certezas, na medida em que o significante do Nome-do-Pai, aquele que representa a falta no Outro, está foracluído.


Não havendo um saber para substituir o S1 materno, metaforizando-o, o sujeito não tem como localizar seu desejo no Outro, deslizando apenas metonimicamente na cadeia significante. Não há uma dialética em jogo, em que uma significação remeteria a uma outra, há uma fixidez do sentido. Em termos saussurianos, o significante, enquanto imagem acústica, perde sua primazia em relação ao significado, seu conceito. O falo, como operador do processo de separação, comparece apenas de forma consistente, sem sua dimensão de equívoco.

A transferência, portanto, se dá no plano imaginário, na relação do sujeito com o pequeno outro (a ― a’) que suporta sua imagem especular. Trata-se, como nos diz Lacan no Seminário 3 - As psicoses, ao abordar o caso Schreber, de um outro “diminuído e decaído com o qual [ele] não pode ter outras relações que não as de frustração - esse outro o nega, literalmente o mata. Esse outro é o que há de mais radical na alienação imaginária”.


Sem a dialetização promovida pelo falo, o sujeito psicótico se oferece como puro objeto de gozo do Outro, o corpo do sujeito não se separa do gozo do Outro, tornando-o, no caso da paranóia, perseguidor. As certezas apontam a inoperância do Nome do Pai e sinalizam o lugar em que ele se coloca diante do outro: o perseguido, o gozado. Como nos aponta Araceli Fuentes em seu texto La certeza psicótica y su tratamiento por el analista, se a certeza neurótica vem como resposta ao enigma do desejo do Outro, na psicose, no lugar do enigma, há um vazio de significação.


Em outros termos, seria a não extração do objeto a que impede o sujeito psicótico de localizá-lo no outro, de supô-lo no outro, ainda que saibamos que uma suposição é uma crença. Assim, como podemos manejar a transferência e conduzir o tratamento do sujeito que carrega “o objeto a no bolso” .


Vicente Palomera, na entrevista Transferencia y posición del analista en las psicosis, nos revela orientações precisas quanto aos lugares possíveis do psicanalista na transferência com a psicose ao afirmar que não se trata de ocupar o lugar do Outro absoluto, o mestre sem barra, tampouco o lugar do ideal I(A).


Se é o Outro que sabe sobre o que se passa no corpo do psicótico, a demanda, que se instala pelo discurso do mestre e que, ao mesmo tempo, inaugura a divisão no sujeito, só produzirá mais desestabilização em relação a sua própria saída frente ao Real. Em sua dimensão simbólica, a transferência só pode surgir na medida em que o sujeito pode se fazer de objeto para o Outro, alienado a este. A questão me parece, portanto, distinguir a demanda no campo da neurose e no campo da psicose.

O lugar do ideal também não é interessante pois, na falta de uma identificação primordial, que organize todas as outras, o sujeito psicótico, logo se situa, nos diz Palomera, “sob esses significantes do ideal, nesta perspectiva, o analista idealizado não será senão seu duplo simbólico em uma espécie de reverso da identificação”.

Assim, coloca-se, nas psicoses, a dimensão do secretariar. Mas não somente. “Se trata de ocupar o lugar de um semelhante para acompanhá-lo, mas tampouco basta por acompanhar posto que do psicanalista se espera algo”. Neste trecho, Palomera frisa a importância do psicanalista comparecer como alguém que testemunhe seus delírios, ratificando sua existência, ao mesmo tempo em que contribua com suas possíveis invenções:


Se espera uma manobra que ajude na construção daquela ficção em que o gozo em excesso encontre um sentido e uma legitimação no fantasma que permita um enodamento do corpo, do gozo e da linguagem. A introdução do psicanalista [...] deve apontar a orientar a construção persecutória ou a orientar as experiências passionais fazendo-as suportáveis. [...] O analista deve se esforçar por ‘acréscimo tanto para orientar o gozo de modo limitativo’, contrariando o gozo não regularizado, como, ‘de modo positivo’, sustentando alguns ideais do sujeito. São justamente estes ideais que permitem ao sujeito se manter no vínculo social (Palomera, 2018, p. 78 e 79).


Quando Palomera nos diz que nosso método com sujeitos psicóticos “procede de um sulcamento operado pela prática” seria o mesmo que dizer que devemos abrir mão da interpretação a para “fazer sulcos”, “construir passagens”, como em uma conversação? J.-A. Miller sobre o dispositivo da conversação, em La pareja y el amor, diz:


[...] é essa a ficção da conversação: produzir, não uma enunciação coletiva, senão uma ‘associação livre’ coletivizada, da qual esperamos um certo efeito de saber. Quando as coisas me tocam, os significantes dos outros me dão ideias, me ajudam e, finalmente, resulta – por vezes – algo novo, um ângulo novo, perspectivas inéditas (Miller, 2005, p. 16)


Não há conversação, portanto, que não seja entre-vários. A clínica das psicoses nas instituições nos ensina que, para surgir uma invenção, uma solução singular do sujeito, é preciso suportar “saber não saber”. Em uma ficção entre vários, algo novo pode surgir e movimentar os praticantes e o caso.













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